No capítulo sobre “A música barroca”, que escreveu para a História Geral da Civilização Brasileira (Tomo I – a época colonial, organizado por Sérgio Buarque de Holanda), relatando os resultados de suas pesquisas sobre a música no período do ouro em Minas Gerais, Curt Lange concluiu apontando José Maurício como herdeiro da tradição da música do que chamou de “escola de composição da capitania das Minas Gerais”.

À época em que Curt Lange fez suas pesquisas, José Maurício era o nome mais antigo que se conhecia como compositor atuante nas terras que hoje são o Brasil.

Ele já estava ativo no Rio de Janeiro, sua cidade natal, quando ali chegou a corte do Príncipe Regente (futuro rei D. João VI) em 1808. José Maurício era o mestre de capela da Sé do Rio de Janeiro, uma igreja pobre e sem sede definitiva, funcionando em templos emprestados de irmandades. A cidade era uma vila acanhada, mero entreposto administrativo e portuário entre a região do ouro e a metrópole lusitana.

O Príncipe Regente tinha, certamente, entre suas principais preocupações, a questão de como estabelecer uma vida musical “normal” para sua corte. Vinha em seu séquito apenas uma parte de sua formidável Capela Real – que fazia de Lisboa um dos centros musicais mais importantes do Antigo Regime. Sobretudo, faria falta o compositor Marcos Portugal, o preferido da corte, que ficou em Lisboa.

Foi grande a sua surpresa ao encontrar em atividade na cidade o padre mulato. José Maurício tinha tal técnica de composição que impressionou o gosto entendido do Príncipe, sendo nomeado mestre da Capela Real no Rio de Janeiro, na ausência de seu titular de Lisboa. Quando Marcos Portugal decidiu emigrar também, em 1811, ambos passaram a dividir o cargo – tendo morrido os dois no mesmo ano de 1830.

Imaginou-se que José Maurício fosse produto espontâneo, gênio brotado de uma terra sem tradição. Isso mostra o quanto a chegada da corte ao Rio de Janeiro representou uma severa ruptura com tudo de vida autóctone que tinha sido construído em 300 anos de colonização. O Rio de Janeiro tentaria ser uma impossível metrópole européia nos trópicos, de costas para o passado colonial, olhos fixos na Europa.

A descoberta da tradição mineira do século XVIII por Curt Lange, na década de 1940, era a primeira pista da rica vida musical anterior à chegada da corte. José Maurício seria o herdeiro desta tradição, segundo o musicólogo alemão.

Até então, José Maurício foi o primeiro compositor cuja memória não se perdeu no Brasil. Não que sua memória tivesse recebido o tratamento merecido:  somente não tinha sido ignorado de todo. Um seu filho (naquela peoca os padres tinham filhos sem muito escândalo), que se tornou médico, foi um que trabalhou contra o esquecimento. A primeira biografia foi publicada pelo Visconde de Taunay, ainda no século XIX.

Mas o estudo definitivosó sairia pelo trabalho de Cleofe Person de Mattos (catálogo publicado em 1970, biografia publicada em 1997).

A descoberta, no sentido de inclusão de suas obras nos concertos e gravações, foi também coisa difícil. Parece que foi tentada sem sucesso já na virada dos séculos XIX e XX por Alberto Nepomuceno. Mas seria conseguida somente com a Associação de Canto Coral criada na década de 1940 por Cleofe Person de Mattos.

Mais recentemente, são vários pesquisadores, musicólogos e conjuntos espcializados que se dedicam à obra do compositor. O nome dele é considerado sem muita dúvida como o maior compositor do continente, na primeira metade do século XIX. Não vem encontrando destaque na história da música “universal” porque representante de um modo de fazer música que simbolizava o passado aristocrático, já em substituição nos países da revolução industrial por um modo de vida musical burguês, baseado não mais na corte e na música litúrgica, mas no concerto público e nas formas instrumentais e de música absoluta.

É possível perceber uma transição estilística após a chegada da corte. Antes de 1811 (na verdade a maior transição parece que foi mesmo com a chegada de Marcos Portugal), obras vocais, polifonia austera, sentido litúrgico e de devoção pia. Depois de 1811 maior desenvolvimento dos recursos instrumentais, maior influência das sugestões musicais derivadas da ópera, maior virtuosismo e brilhantismo tanto das partes vocais como instrumentais. Maior diversidade de formas musicais também.

Abaixo, vídeo com execução de sua primeira composição, o moteto Tota pulcra es Maria, de 1783 (composto aos 16 anos de idade). Regência de Ricardo Kanji:

Ainda no estilo mais afeito à tradição colonial, Te Christe solum novimus, pelo conjunto Americantiga, regência de Ricardo Bernardes:

Já no novo estilo, algumas obras:

Abertura em Ré, regência de Ricardo Kanji (e explicações também, dadas de dentro da Capela Real)

Lição n° 5, do método piano-forte, com citações da Abertura do Barbeiro de Sevilha de Rossini (execução de Mário Marques Trilha):

Missa de Santa Cecília de 1826, se não me engano, a última composição de José Maurício. No vídeo a seguir, em montagem com imagens do compositor e do Rio de Janeiro da época:

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