Pensar a história da música brasileira, como se propõe fazer este blog (e a disciplina no curso superior de música que lhe deu origem), é pensar a relação entre música e indentidade nacional.

Coisa que não existia antes dos tempos da chamada “independência”.

Falar de “música brasileira” em períodos anteriores seria um erro grave, já cometido, por exemplo, num texto de Gilberto Vasconcelos e Matinas Suzuki na coleção HGCB. Ainda bem que tenho meus fichamentos dos volumes 3 e 4 do tomo III – O Brasil republicano, sob organização de Boris Fausto.  O texto é “A maladragem e a formação da música popular”, capítulo XI, p. 501-523 da edição de 1984 da DIFEL. O capítulo destoa de tudo o mais no livro, não respeita a periodização do volume (1930-64) e usa indicriminadamente o conceito de “MPB” para os séculos iniciais da colonização.

Fecha parênteses.

Os séculos XVI e XVII são períodos bem difíceis de se estudar, pela distância temporal e pela enorme diferença que nos separa da cultura musical daqueles tempos. As fontes são escassas e incompreensíveis para o leitor moderno, necessitando de um trabalho profundo só para torná-las minimamente acessíveis.

Foram os tempos em que o continente americano foi incorporado aos impérios da Península Ibérica: Portugal e Espanha. Seus mui católicos monarcas receberam autorização do Papa (que se julgava diretamente concedida por Deus por meio de seu representante na terra) para colonizar e catolicizar os novos continentes que fossem capazes de atingir com suas formidáveis e invencíveis esquadras.

As características das terras americanas que couberam a Portugal na partilha com o país vizinho fizeram com que nossa região do mundo ficasse relativamente abandonada. Não havia ouro aqui a saquear (como o que os espanhóis encontraram com astecas e incas) nem reinos dispostos a comerciar produtos de alto valor e baixo custo de transporte (como o que os portugueses conseguiram nas costas da África, da Índia e da China).

Por isso, após a passagem de Cabral, demorou-se mais uns 50 anos até chegar o primeiro governador-geral. Com ele chegaram os missionários jesuítas, que mostraram que colonização andava junto com cristianização.

Sabe-se que os jesuítas foram a ordem religiosa que mais levou a sério a tarefa, e a única que dispunha dos meios organizacionais necessários para expandir a fé católica aos cinco continentes. Com os indígenas do Brasil, usaram sempre muita música. Documentos que revelam algo sobre isso estão começando a ser estudados muito recentemente, sendo uma coisa sobre a qual se sabe muito pouco. Alguns textos onde temos pistas para estas informações (com gravações):

Trilha sonora para uma festa antropófaga dos Tupinambás na qual um viajante alemão quase serviu de jantar.

Um canto para a catequese.

Os jesuítas e a música na América Portuguesa.

Os textos com links acima, remetem a duas pesquisas fundamentais. A tese de Marcos Holler sobre os jesuítas e a música e um disco de Ana Maria Kiefer, intitulado Teatro do descobrimento onde a pesquisadora reconstitui de forma bastante imaginativa uma boa parte da música de que se tem notícia para o período dos séculos XVI e primeira metade do XVII. As explicações sobre a pesquisa e os caminhos que trilhou para gravar algumas das músicas foram dadas pela pesquisadora num texto muito interessante: “A flauta de Matuiú: registro, memória e recriação musicaldas festas no Brasil nos séculos XVI e XVII.”  in  JANCSÓ, István; KANTOR, Iris. (orgs.)  Festa. Cultura e sociabilidade na América portuguesa.  vol II.  São Paulo: Imprensa Oficial/HUCITEC/EDUSP/FAPESP, 2001.  p. 891-901.

No mesmo disco, como explica no mesmo texto, Ana Maria Kiefer também especula imaginativamente sobre a música dos judeus no período de presença holandesa no Recife. Quando se sabe que tiveram um momento ímpar de liberdade religiosa – chamado de “restrição moderada” por Franz Leonard Schalkwijk no seu clássico Igreja e estado no Brasil holandês. E faz relação com prováveis permanências no “folclore” rural nordestino. Veja mais sobre isso:

Música dos judeus no Brasil holandês.

Como se vê, as características da ocupação do território do que seria o Brasil são bastante plurais e dinâmicas. Diversos grupos étnicos ameríndios, dos quais os portugueses tiveram relação mais próxima com o grande grupo tupi-guarani. Para sua catequização, os jesuítas desenvolveram até mesmo uma escrita e uma gramática. Com suas tradições musicais, relacionaram-se também as canções e villancicos da Espanha, em versões religiosas. Mas também, uma boa parte daquilo que chamamos de “herança portuguesa” na cultura brasileira foi obra específica dos cristãos-novos, também chamados de cripto-judeus ou “marranos”. Tradições nada européias, ou, melhor dizendo, tradições que os europeus suprimiram violentamente mas que aqui floreceram à margem, além do alcance da repressão inquisitorial.

Como se vê, seria muito ingênuo tentar manter a antiga tese das “três raças” (o índio, o negro e o português). Tem muito mais diversidade aí. E foi a multiplicidade de culturas musicais que se encontraram nos domínios portugueses deste lado do Atlântico que formou o que podemos pensar como particularidades ou diferenças em relação a portugal. A presença muito antiga dessas diferenças com os portugueses foi sempre uma coisa importante para o que depois iria ser pensado como identidade nacional nos tempos de Brasil independente.

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